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Para a professora Maria Teresa de
Assunção Freitas, são dois os principais motivos da abreviação de palavras: o primeiro, a
facilidade de se escrever de modo simplificado, e o segundo, a pressa. Esta,
por sua vez, está ligada a outras duas razões: a economia (mandar uma mensagem
maior pelo celular pode custar mais) e o desejo de reproduzir virtualmente o
ritmo de uma conversa oral. Já para acelerar o bate-papo, que na
internet, em chats e programas de mensagem instantânea, acontece em
tempo real, explica a especialista. No celular, há o agravante do
teclado, que é menor, e do preço, que é maior. Uma terceira causa seria o desejo do adolescente de pertencer
a um grupo: ele pode adaptar a sua escrita à linguagem da comunidade de que
quer fazer parte - com o uso dos termos adaptados, ele adere aos códigos do grupo.
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Os principais autores da escrita
simplificada são os jovens e, entre eles, os adolescentes. Eles fazem uso desse tipo
de linguagem no celular e na internet, especialmente em canais de
relacionamento, como o Orkut e o MSN. “Mas essa linguagem teve início nos chats”, afirma a
professora Maria Teresa, que já realizou uma pesquisa na área, também começando pelas salas
de bate-papo virtuais. Nos e-mails, segundo ela, a escrita abreviada tem
menos lugar porque se trata de um meio de comunicação assíncrono, ou
seja, a informação é enviada em intervalos irregulares: uma pessoa envia uma mensagem para
outra, mas não sabe quanto terá uma resposta. É um ritmo parecido com o da
tradicional troca de cartas. No celular, a linguagem abreviada fica restrita
aos torpedos, que são escritos.
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Os adolescentes têm grande
facilidade de se adaptar aos símbolos de um novo código, pelas
características da própria idade. Não é de hoje que colegas de escola trocam bilhetinhos durante a aula.
Longe das vistas do professor, trocam papéis amassados ou dobrados - se é que hoje não o fazem por
celular ou mesmo pela internet, nos colégios onde o computador é instrumento de
ensino. É próprio do adolescente criar código. No celular, porém, a adesão à linguagem
simplificada é maior, devido à dificuldade de digitar no pequeno teclado do aparelho telefônico. Jovens
adultos e adultos também vêm passando a utilizá-la.
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Sim, mas de modo diferente. O
telegrama é um meio de comunicação que faz uso da linguagem
abreviada, mas segue um código mais formal, mais atento às regras ortográficas cultas. Não é usual, por
exemplo, trocar “assim” por “axim” ou “endosso” por “endoço”. O telégrafo, aliás, chegou a fazer uso do Código Morse, que, com pontos e traços, facilitava a
transmissão da mensagem. O texto era transmitido de forma codificada pelo
telegrafista, que se colocava como intermediário entre emissor e receptor.
Depois, a mensagem era transportada por navio, trem ou aviso (mais tarde).
Nas conversas pela internet ou pelo celular, essa figura não está presente, o que
permite uma maior intimidade entre as partes envolvidas no diálogo. Além disso, a
escrita da internet está contaminada pelos ares de sua época: ela é uma forma própria ao suporte
em que se deita. “O contexto gera formas novas de utilizar a linguagem”, afirma a
professora Maria Teresa.
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Quando duas pessoas dominam o mesmo
código, não costuma haver dificuldade na troca de mensagens. Mas uma pessoa que
nunca empregou uma linguagem como a que os adolescentes usam na internet pode
achá-la uma loucura à primeira leitura. Pais e mães podem pensar que é uma escrita
errada, quando não é: uma escrita feita para um suporte próprio, adaptada para uma determinada
situação. “Não há erro de ortografia, embora essa linguagem desobedeça à regra culta”,
defende Maria Teresa. É claro também que, como demonstrou a experiência realizada na Austrália, pode
haver maior dificuldade em ler a mensagem em voz alta do que escrever de
maneira reduzida - especialmente se quem lê em voz alta não domina bem o código que está lendo.
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A linguagem abreviada, especialmente
a da web, segue os padrões da oralidade. Ela substitui uma conversa ou um bate-papo. O
interlocutor “está presente e em tempo real, apesar da distância”, diz Maria
Teresa. Para andar mais rápido, se escrevem oxítonas com acento
agudo sem acento e com aha no final, como “cafeh”, e se firmam acordos tácitos para uso de determinadas
palavras, como “vc” em vez de “você” ou “tc” em vez de “teclar”. Há diversas fontes na internet, como sites específicos e, o próprio MSN, onde
usuários dessa linguagem podem copiar símbolos ou emoticons para depois usá-los em suas
mensagens.
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Muitos adolescentes ouvidos por
Maria Teresa, em sua pesquisa, demonstraram saber separar as coisas. “Eles
sabem que na escola não podem escrever da mesma forma que na internet”, diz ela. Essa
linguagem é um gênero novo de discurso, e os usuários sabem disso, sabem que é algo diferente
do que está no livro ou em outro lugar. Para a professora, uma prova de que os
adolescentes sabem separar as coisas é que, quando o canal de filmes pago
Telecine criou a sessão Cyber Vídeo, com legendas que se apropriavam do internet’s, houve uma
forte reação dos próprios adolescentes contra o método. Eles diziam que não era linguagem
própria para o cinema, que era linguagem de internet. Dirigida ao público teen, a
experiência do Telecine não foi mesmo para frente: estreou em 2005 e já no ano seguinte
saiu do ar.
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É possÍvel que essa linguagem venha, no
futuro, a modificar a lÍngua que falamos. Já começamos a incorporar, no português do Brasil, os
termos da informática e da internet, como "deletar", "caps lock",
"control+c", "control+v", "control+z". Há muita gente
rindo em voz alta como na web: “eheheh”. A língua é uma coisa viva, porque falada. A língua é dinâmica, se
transforma sempre, diz Maria Teresa.
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Pelo contrário. A pesquisa
da professora da UFJF mostra que a internet está levando o adolescente a ler e a
escrever mais. O texto escrito foi redescoberto como forma de comunicação, e a leitura
ganhou novos formatos. Há uma espécie de letramento digital. A
leitura é hipertextual: baseada no hipertexto, na utilização de links. Cada
um faz a sua leitura, não precisa ser linear, enquanto o livro é geralmente linear, pondera ela. Em
resumo, no meio digital o leitor tem mais autoria na leitura - ele faz o seu
próprio percurso, a sua seleção. E lê de maneira
prazerosa,
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A "linguagem" da internet
também fornece informações sobre o estado de espírito de quem escreve.
Confira algumas amostras.
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Fonte: Microsoft (fabricante do MSN Messenger) e Maria Teresa de Assunçãoo Freitas, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes na Internet e na Escola.
Aline de Jesus Magallanez, acadêmica
do 4º semestre do curso de Letras-Inglês da Universidade Federal de Roraima.
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