No semestre de 2014.1 três alunas de Letras da Universidade Federal de Roraima (UFRR) aplicaram uma pequena pesquisa aberta ao público que visava saber qual era o entendimento das pessoas acerca da LIBRAS.
A
pesquisa foi aplicada em diferentes grupos que estão em contato direto com
pessoas de personalidades diversas, cada componente ficou responsável por
entrevistar 10 pessoas o que resultou em 30 pessoas entrevistadas.
Ao
fazer a análise dos dados notou-se que as três pesquisas tiveram semelhanças
profundas em algumas questões e diferenças absurdas em outras, o que mais
causou espanto foi notar que muitas pessoas têm a falsa crença de que LIBRAS é
uma língua universal (questão 03), ou seja, elas creem que existe apenas uma
língua de sinal e que esta mesma língua é usada por todos os surdos no mundo
todo, jamais passou pela cabeça dos entrevistados que a LIBRAS é a língua de
sinais oficial apenas do Brasil, e
que ela possui todos os outros elementos de qualquer outra língua no mundo:
gírias, variação linguística, elementos morfológicos, sintáticos e agora
recentemente está se aprimorando na sua escrita.
Outro
fato interessante se refere à oportunidade de poder estudar Libras como forma
de aprimoramento profissional, ou por simples conhecimento. Nas três pesquisas
foi quase unânime o “sim” que os entrevistados deram quando questionados se
estudariam Libras caso tivessem oportunidade (questão 07), isso mostra que as
pessoas – principalmente os universitários – acreditam que a interação entre o
surdo e o restante do mundo não precisa e nem pode acontecer somente com a
fala, ou seja, aos poucos a crença de que o surdo precisa ser oralizado e
aprender leitura labial para interagir com o resto do mundo está se tornado
obsoleta. E quando um falante de língua oral busca conhecer a língua de sinais,
ele está corroborando para a autoafirmação dos surdos como parte da sociedade,
e ajudando assim a por fim em preconceitos e pré-conceitos já tão vazios e
desgastados, Gesser diz que “Oralizar
é sinônimo de negação das línguas dos surdos. É sinônimo de correção, de
imposição de treinos exaustivos, repetitivos e mecânicos da fala” (GESSER,
Audrei, p. 50, 2011).
Outro
ponto interessante foi a reação dos entrevistados ao descobrirem que a Libras é
a segunda (2ª) língua oficial do Brasil, alguns ficaram surpresos e apenas um
disse que acha isso errado, não por ele ter algum tipo de preconceito com a
Libras, mas sim por (ele) crer que quando se escolhe uma língua de uma das
minorias linguísticas do país para ser a segunda língua oficial do Brasil, se
está automaticamente levando esse fato como forma de detrimento às demais
minorias, a resposta a esse questionamento do entrevistado foi facilmente
extirpada quando dito a ele “Mas você acredita que as demais minorias estão em
contato diário com a maioria dos falantes de Português? Onde quer que você vá
haverá um surdo ou alguém que tenha contato direto com um surdo, mas me
responda, quantas vezes você viu um quilombola, ou um índio xavante na fila do
banco? Você conhece alguém das colônias alemãs de Santa Catarina que em alguns
casos nem ensinam Português aos filhos por não se considerarem parte da nação,
ao contrário dos surdos que estão presentes no cotidiano dos falantes, que têm
noção de que são partes desse país, mas que precisam de respeito e apoio por
conta da sua condição auditiva limitada e as vezes inexistente que muitas
pessoas deixam passar batido por acreditar que são os surdos que precisam
buscar meios de se integrarem com a sociedade incluindo aí a oralização que
pode ser constrangedora e humilhante para alguns surdos”. Depois disso o
universitário pensou um pouco e disse “realmente, você tem razão”.
Caso
existisse o ensino de Libras nas escolas públicas desde a infância, talvez essa
crença de que o surdo precisa ser oralizado fosse extirpada, a língua de sinais
assim como a língua portuguesa são mais que apenas línguas, é parte do acervo cultural
de um povo, na língua está depositada a evolução de uma comunidade, a cultura,
a identidade de uma pessoa e quando se diminui a língua de sinais tratando-a
como apenas mímica se está dizendo -
mesmo que não seja intencionalmente – que a cultura do surdo não é
válida, que o que ele precisa saber “falar” para que ele seja parte de uma
sociedade; Esta pesquisa veio em boa hora pois diante da curiosidade que os
entrevistados demonstraram com as perguntas, pode-se ter a certeza de que eles
comentarão o questionário com as pessoas do seu ciclo social e que talvez
alguém se interesse em estudar Libras mais profundamente.
No quadro abaixo encontram-se os resultados
dos questionários apresentados de cada componente do trio, leia-se SIM onde
estiver “S” e NÃO onde aparecer um “N”.
Alunas que fizeram a pesquisa: Carla Tatiana Araújo Coimbra
Daniele Dimas Custódio
Neuzelir Pereira Moreira|
Componente
do grupo
Perguntas
|
Carla
|
Daniele
|
Neuzelir
|
|||
|
Você sabe o que significa LIBRAS?
|
9
S
|
1
N
|
9
S
|
1
N
|
8
S
|
2
N
|
|
Você conhece alguém que se comunique através de
LIBRAS?
|
4
S
|
6
N
|
2S
|
8N
|
3
S
|
7
N
|
|
Segundo seus conhecimentos a LIBRAS é universal,
ou seja, todos os surdos do mundo se comunicam usando somente LIBRAS?
|
6
S
|
4
N
|
2S
|
8
N
|
6
S
|
4
N
|
|
A LIBRAS pode ser escrita?
|
6
S
|
4
N
|
2S
|
8
N
|
3
S
|
4
N
|
|
Você sabia que a expressão “surdo-mudo” é errada e
em alguns casos até preconceituosa?
|
10
S
|
-
|
8S
|
2
N
|
5
S
|
5
N
|
|
Você sabia que a LIBRAS é a segunda língua oficial
do Brasil?
|
2
S
|
8
N
|
4S
|
6
N
|
2
S
|
8
N
|
|
Você estudaria LIBRAS caso tivesse oportunidade?
|
9
S
|
1
N
|
10S
|
-
|
6
S
|
4
N
|
|
Você acredita que a LIBRAS seja puramente mímica?
|
9
S
|
1
N
|
1
S
|
9
N
|
1
S
|
9
N
|
|
Você acha que o surdo é vítima de preconceito e
exclusão na sociedade?
|
9
S
|
1
N
|
10
S
|
-
|
10
S
|
-
|
|
Você crê que seja relevante o ensino de LIBRAS nas
escolas desde a infância?
|
10
S
|
-
|
10
S
|
-
|
10
S
|
-
|
REFERÊNCIAS
Gesser, Audrei, 1971-LIBRAS? : Que língua é
essa? : crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da
realidade surda / Audrei Gesser ; [prefácio de Pedro M. Garcez]São Paulo : Parábola Editorial, 2009.
(Daniele Dimas Custódio, aluna de Linguística Aplicada do semestre de 2014.1 da Universidade Federal de Roraima)
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